MÚSICA PARA CURAR A DEPRESSÃO

MÚSICA PARA CURAR A DEPRESSÃO

MÚSICA PARA CURAR A DEPRESSÃO

Para recuperar o brilho nos olhos, que tal deixar os ouvidos bem abertos? Seja utilizando a voz, seja por meio de instrumentos, descubra por que a musicoterapia é uma importante ferramenta contra a depressão

 

Texto • Sandra Cruz
 

Algumas pessoas estão nos tamborins, outras preferem os pandeiros, um violão e até chocalhos. Não, não se trata de uma banda de carnaval, mas de um grupo formado por pacientes e familiares envolvidos em uma sessão de musicoterapia.

No Hospital Israelita Albert Einstein, importante centro médico de São Paulo, o setor dedicado à terapia musical tem grande destaque. Pacientes com problemas neurológicos, com câncer, submetidos à diálise e, principalmente, aqueles que passam por trabalho de reabilitação, recebem tratamento ali. Em comum, carregam o fato de suportarem o peso de serem vítimas de doenças graves e, em decorrência disso, sofrerem de depressão.

“As sessões de musicoterapia são um dos poucos momentos em que os pacientes e seus familiares esquecem a doença e têm uma relação de troca, o que alivia as tensões e estimula a expressão dos sentimentos”, diz a musicoterapeuta Cristiane Ferraz, doutorada pela Universidade de Nova York, que atua no Serviço de Terapia da Dor e Cuidados Paliativos e Oncologia do hospital paulistano.

Uma das formas de estimular a participação dos doentes é começando a sessão com o convite para que os participantes expressem, em palavras, o que estão sentindo naquele momento. “A idéia é criar um ambiente positivo”, diz Cristiane. Basta, então, uma pessoa começar a falar, para as outras seguirem o exemplo. A partir dali, emoções diversas vêm à tona. 
 

A caminho da recuperação

Para ser um especialista da área, não é preciso ter conhecimento musical. Necessário mesmo é fazer um curso para aprender a explorar o processo de comunicação, desenvolvido por diversas experiências musicais, como a composição, a improvisação e a musicoterapia receptiva.  Na composição, que trabalha o potencial criativo, tanto a música como a letra refletem o estado de espírito e os sentimentos do “compositor”, no caso o paciente.

Ana Paula Cascarani, profissional que participou do projeto Arteterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, atualmente professora do curso de musicoterapia da Universidade FMU, conta que, muitas vezes, inicia a sessão cantarolando frases simples, como “hoje eu me sinto...”. A brincadeira instiga os pacientes a completarem a sentença. “Depressivos em início de tratamento respondem coisas do tipo ‘triste, pois o sol nasce cinza’”, afirma a especialista. Quando isso acontece, a musicoterapeuta, em vez de tentar animá-los, dá seqüência ao processo, acompanhando o ritmo determinado pelos participantes. “Eu ajudo o paciente a escrever a letra, construo os acordes com ele e a gente canta a música. Forçar a criação de uma canção alegre não funcionaria, pois não é o que ele está sentindo”.

Além disso, segundo Cristiane, não existe necessariamente música triste ou alegre, existem pessoas e interpretações. “A música que é alegre para você pode não ser tão agradável assim para mim, e vice-versa”. Muitas vezes, quando a música proposta por ele fica pronta, o próprio paciente se surpreende ao perceber que a obra não é assim tão triste. Aí é que entra o trabalho de conscientização, de descoberta, desenvolvido pelo musicoterapeuta. “Eu busco sempre estimular a parte sadia da pessoa, fazer com que reencontre o que tem de bom dentro dela”, ressalta a profissional. 
 

 

Em números

A depressão atinge mais de 120 milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), menos de 25% dos deprimidos recebem algum tipo de tratamento.

 

 

Entre maracas e CDs

É em um ambiente de total cumplicidade que musicoterapeuta e paciente trabalham as emoções, utilizando harmonia, melodia, letra e ritmo. Nas atividades de improvisação, o doente faz música com instrumentos. O trabalho sonoro varia de acordo com cada pessoa. Antes de começar as sessões, o profissional faz um minucioso levantamento do gosto musical do paciente, o estilo preferido, músicas que marcaram a vida dele desde a infância e quais seus instrumentos favoritos.

São usados, principalmente, instrumentos de percussão, tambores, pandeiros, violões, flautas, chocalhos e maracas. O objetivo é, acima de tudo, promover a iniciativa do paciente. “Tem que ser uma experiência gostosa e, sobretudo, confortável para o paciente”, diz Cristiane Ferraz.

Na musicoterapia receptiva, CDs com sons da natureza, música new age e erudita ajudam a tranqüilizar o paciente. Mas não há regra ou padrões, tudo depende da pessoa que está em tratamento. Em alguns consultórios, o musicoterapeuta prepara um repertório de acordo com a personalidade de cada um. Podem ser músicas com letra, de MPB até mesmo rock’n’roll, “embora músicas com contexto escuro, que falam de tristeza e solidão, sejam, em geral, descartadas no tratamento de depressivos”.
 

A busca por autoconfiança

Muitas vezes, o depressivo leva tempo para perceber e admitir que está doente. Pedir ajuda, então, é um sacrifício grande demais. A melancolia, a tristeza, o desânimo e a falta de esperança são apenas alguns dos sinais, que podem vir acompanhados por sintomas físicos, como dores pelo corpo e fadiga. É aí que a música pode fazer a diferença.

Ana Paula conta a história de um grupo atendido por ela há alguns anos – três mulheres, todas com mais de 50 anos., sofrendo de depressão. Uma delas continuou participando das sessões mesmo após receber alta da psiquiatria. Outra, apesar de não largar os antidepressivos logo de cara, recuperou a auto-estima por meio da musicoterapia, transformando-a, inclusive, em profissão. A paciente, que durante a juventude sempre gostou de violão, ao chegar aos 50 anos, resolveu aprender a tocar e passou a dar aulas do instrumento.

A especialista comemora a evolução dos pacientes, mas alerta que o depressivo passa por altos e baixos. “Em muitos casos a depressão não é só de fundo psicológico, mas sim orgânico, ou seja, o deprimido vai precisar usar remédios no tratamento do desequilíbrio químico do organismo”, diz Ana Paula. Nesse caso, a musicoterapia surge apenas como um meio de amenizar os efeitos da doença.  
 

 

A trilha do prazer

Não existe uma trilha sonora ideal que possa ser indicada para o tratamento da depressão, ou de qualquer outra doença – afinal, felizmente, somos seres únicos e particulares com necessidades e características distintas. Predomina, porém, a reprodução de músicas clássicas, que, segundo especialistas, facilitam a fluência da imaginação. O ouvinte que se deixa levar pelo ritmo, timbre e intensidade das canções, em geral, apresenta reações positivas.

 

 

 

 

União de sucesso

É indiscutível que a música desperta emoções profundas e é capaz de transformar comportamentos. Para especialistas, o sucesso da terapia no combate à depressão depende também de um trabalho em equipe. É a parceria entre o musicoterapeuta e o psiquiatra ou psicólogo em prol do bem-estar do paciente.

Ana Paula Cascarani ressalta que a doença pode aparecer ainda mais facilmente na terceira idade. “Imagine como é difícil compreender que a cabeça está bem, mas o corpo não acompanha mais”, diz ela.

Uma pesquisa da Universidade Americana de Stanford, no entanto, mostrou que a musicoterapia contribui bastante no tratamento da depressão na população idosa. Durante oito semanas, trinta pessoas com mais de 60 anos foram monitoradas, em diversas condições de tratamento. O grupo que teve contato com a musicoterapia na própria residência apresentou melhora na saúde, no humor e elevação da autoestima. 
 

Silêncio informativo

Em algumas sessões, o terapeuta propõe canções, letras, mas em nenhuma delas o depressivo se reconhece. Aí surge o silêncio, que também é música para o terapeuta. “O silêncio é transformação, é um encontro com o eu interior”, garante Ana Paula. Nesses momentos, o profissional tem de ser ágil e não deixar o paciente mergulhar na melancolia. O ideal é fazer um trato com ele, respeitar o silêncio, mas não deixar que ele impere. “Nessa situação, faço acordos com o doente em questão: olha, hoje teremos cinco minutos de atividades, depois mais cinco, e gradativamente aumentamos”. Aos poucos, a profissional vai ganhando a confiança do depressivo. 

“É fascinante assistir ao progresso dos pacientes”, afirma a professora. Nas sessões, que podem ser individuais ou em grupo, as pessoas conseguem expor sentimentos que nem sempre são fáceis de expressar verbalmente. “O resultado é um alívio transformador”.

Alívio que encontrou, por exemplo, uma das paciente de Ana Paula, após dois anos de tratamento. A garota, de 25 anos, sofria de síndrome do pânico. Antes, não conseguia sair de casa, vivia melancólica, depressiva, chorando pelos cantos e com medo de tudo. Com a musicoterapia, tornou-se consciente dos próprios limites e ganhou mais equilíbrio. Segundo Ana Paula, a paciente passou a notar quando as crises se aproximavam e melhorou seu autocontrole.

Durante o tratamento, a musicoterapeuta orientou a garota a pensar no trabalho desenvolvido no setting terapêutico – espaço onde acontecem as sessões – e lembrar as indicações que o corpo dá para ela se acalmar. Para tornar a terapia ainda mais eficiente, técnicas de respiração, aplicadas antes das sessões. Tudo isso contribui para fazer com que a paciente sinta-se confortável e aberta ao poder benéfico que a música pode exercer. Afinal, a idéia da musicoterapia é estimular o autoconhecimento e ensinar a pessoa a interpretar o que o corpo diz. 
 

 Fonte: Triada.com.br

Parte de um processo

A partir da análise da atividade cerebral de adultos depressivos, descobriu-se, há algum tempo, que o lado direito frontal do cérebro está associado a emoções negativas e à depressão. Cientistas da Universidade da Flórida decidiram, então, monitorar num intervalo de três minutos a atividade cerebral de adolescentes deprimidos durante atividades de musicoterapia e massagem. Descobriram que ambas as terapias tiveram efeitos positivos na atividade cerebral. O estudo concluiu que elas devem ser indicadas como complemento de tratamentos contra a depressão.