DEPOIMENTOS: "EU SOBREVIVI!"

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DEPOIMENTOS: "EU SOBREVIVI!"

Conheça as histórias de pessoas que, mantendo a positividade, conseguiram superar limitações físicas e doenças graves

 

Texto • Redação

Você já assistiu ao filme O Segredo(The Secret, 2006)? Um dos personagens-chave da história é o norte-americano Morris Goodman, mais conhecido como “homem milagre”. Ele fez por merecer a alcunha: em 1981, depois de sofrer um acidente de avião, ficou mudo, com o corpo totalmente paralisado e incapaz de respirar ou se alimentar sem a ajuda de aparelhos – tudo o que conseguia fazer era piscar os olhos. Apesar dos prognósticos pessimistas, Goodman manteve a dedicação à terapia e a convicção de que melhoraria. Com o tempo, ele recuperou a fala e os movimentos e, hoje, oferece palestras motivacionais.

Exemplos como o de Goodman servem para nos inspirar e, acima de tudo, para provar que manter a determinação é fator decisivo na hora de superar os obstáculos. Há os que atribuem essa força à própria natureza humana; outros dão crédito a Deus ou à Lei da Atração. Independentemente da crença, o fato é que, muitas vezes, somos capazes de operar verdadeiros milagres.
 

Asas cortadas

Aos 22 anos, recém-formada em Farmácia e empregada numa grande empresa do ramo, Luciana Scotti levava uma vida invejável, cercada por uma família amorosa e muitos amigos. Em uma noite como qualquer outra, ela teve um mal-estar súbito e entrou em convulsão. Foi levada às pressas para um pronto-socorro, depois transferida para outro hospital e, então, encaminhada para a unidade de terapia intensiva. Luciana havia sofrido um AVC – acidente vascular cerebral, popularmente conhecido como derrame.

Mas o mal repentino tinha um nome ainda mais específico: trombose cerebral. Apesar de, num primeiro momento, parecer sem explicação, alguns fatores contribuíram para seu surgimento. “Na época, eu fazia uso de pílulas anticoncepcionais, fumava ocasionalmente e sofria de enxaquecas frequentes. A combinação desses três fatores aumenta em até sete vezes o risco de uma trombose, que só um exame de ressonância magnética é capaz de detectar previamente. Esse problema começou a ser divulgado apenas recentemente, mas já atingiu diversas jovens”, explica Luciana.

Ela permaneceu quase dois meses em coma, período durante o qual sua família se viu confrontada com um quadro terrível. “Os médicos chamaram meus pais em uma sala e deram um prognóstico pior do que aquele que apresento agora. Sem dar esperanças, descreveram uma vida vegetativa, alimentação por meio de sonda, tetraplegia, ausência de fala, olhar sem foco, respiração por intermédio de traqueostomia, fraldas e hipertonia”, conta.

O que faria a maioria das pessoas entregar os pontos não derrotou Luciana. “Nunca me senti pessimista. Aquilo tudo parecia um sonho ruim. Eu vivia os acontecimentos hospitalares como quem assiste a um filme. Como se não fosse comigo”, lembra. Ela conseguiu recuperar parte dos movimentos do braço esquerdo, o suficiente para transformar o computador em sua voz, seu canal de comunicação com o mundo. Digitando com apenas um dedo, reuniu relatos de suas memórias anteriores ao AVC, do processo de recuperação e da difícil adaptação, e os transformou em seu livro de estreia, Sem asas ao amanhecer (Editora Nome da Rosa). Depois desse, ela publicou mais dois títulos.

Questionada sobre o que mais a ajudou nos últimos anos, Luciana é direta: “O amor da família e meu trabalho”. Atualmente, aos 36 anos, ela dedica-se ao pós-doutorado e às palestras que ministra (por meio de slides e textos que outra pessoa lê), abordando temas como inclusão social, humanização e valorização da vida. E constata: “Os problemas físicos eu vou superando, me adaptando, resolvendo. O maior problema que enfrento é social. As pessoas não sabem conviver com alguém deficiente, em nenhum sentido”.
 

Pequenas vitórias

“Eu sofri muito com a comparação. Eu ia a uma danceteria e lembrava que eu adorava dançar; via um casal qualquer se beijando e lembrava que nunca mais eu faria isso; olhava um vestido bonito e me imaginava dentro dele. (...) Vi-me fazendo tudo o que antes, para mim, era banal, trivial. Mas parei de comparar e comecei a valorizar pequenas vitórias. (...) Não posso, a cada segundo que passa, me lembrar das coisas que eu fazia. Esses pensamentos me deixavam muito infeliz e tudo o que eu alcançava me parecia extremamente pouco. (...) Por isso, agora não comparo mais a minha vida de hoje à de outrora, mesmo porque é uma comparação desigual. Vibro com as atuais conquistas porque, para mim, atualmente, são montanhas gigantes que consegui escalar”.

>> Trecho do livro Sem asas ao amanhecer, de Luciana Scotti, publicado em 1998.
 

Fé na vida

As fortes dores de cabeça que a assistente social Ana Paula Machado sentia eram sempre associadas, pelos médicos que a examinavam, a uma sinusite crônica. Mesmo outros sintomas, como problemas de audição e visão, eram relacionados a esse diagnóstico. Até que uma avaliação neurológica e exames de ressonância magnética apontaram a existência de um tumor do tamanho de uma laranja na base de seu crânio. Depois da biópsia, constatou-se: era um carcinoma indiferenciado de nasofaringe, um tumor maligno.

“Por incrível que possa parecer, sempre acreditei em minha recuperação, mesmo nos momentos mais difíceis. Sempre tive certeza de que sobreviveria a tudo isso. É inacreditável, mas eu me mantinha calma, focada no tratamento e nunca desisti. Sabia que se eu me mantivesse assim, quem estivesse ao meu lado também teria essa força, e isso seria sempre um ‘recarregador de baterias’ da minha vida”, afirma.

E momentos difíceis não faltaram: em quase um ano de tratamento, foram cinco internações e inúmeras sessões de quimioterapia e radioterapia. “Tive pneumonia, derrame pleural, infecção no sangue. Quase morri de infecção generalizada. Eu via o desespero de todos e, inclusive, a preocupação do médico em me estabilizar. Senti muita dor e muito medo também”, lembra.

Ainda nos primeiros meses, houve uma redução considerável do tumor, seguida de uma estabilização. No ano passado, novos exames mostraram que a doença está controlada e tem poucas chances de retornar à atividade. Declarando-se “ateia convicta desde os 22 anos”, Ana Paula atribui sua recuperação a dois fatores: “Em primeiro lugar, e mais importante, minha crença e fé inquestionável na vida; depois, o apoio permanente de pessoas que amo tanto. Sem elas, seria muito mais difícil percorrer esse caminho”.

Com toda a razão, Ana Paula considera-se uma vitoriosa. “Hoje, sinto que sou mais forte do que antes. Sei que sou capaz de ultrapassar todos os obstáculos do dia a dia. Mas não é fácil. Toda vez que sinto uma dor ou fico doente, vem a lembrança de tudo o que passei. O que eu faço é acreditar, a cada dia mais, em mim, na minha capacidade de superação e nos que estão junto comigo e me apóiam nessa luta incansável”, conclui.
 

Sem jogar a toalha

“(...) Com o tratamento que estou fazendo, pode ser que nem precise de cirurgia. Isso anima um pouco mais e, apesar dos pesares, estou bem. Quem me conhece o suficiente sabe que eu, mesmo com tantos problemas e situações ainda indefinidas, não vou cair e nem jogar a toalha antes do final. Tenho tanta certeza de que tudo vai dar certo que nem estou esquentando tanto. (...) Ainda não desisti e nem acredito que a minha vida esteja assim tão perto do final. Então, como um bicho-preguiça, agarro-me a essa coisa que é tudo neste momento. E isso tem me dado toda a força e a coragem de que necessito”.

>> Trecho publicado no blog de Ana Paula Machado em novembro de 2005.

Fonte: Triada.com.br