BABA SALAU Fala sobre o Ilê Ifá no Brasil

BABA SALAU Fala sobre o Ilê Ifá no Brasil


- BABA SALAU

Fala sobre o Ilê Ifá no Brasil
Baba Salau (Salawu) nasceu em Lagos, Nigéria, em 1950 numa família que cultua o Ifá há séculos.
Seu pai era babalaô. Baba Salau conta toda essa experiência e conhecimento milenar nesta entrevista. Ele fala yourubá e nada de português. Para facilitar as coisas, Ogunjimi, que fala um pouco de português, traduziu a conversa que foi depois transcrita por Fernando Moretti e revisada por Sérgio de Ogum.

Quando e porque você veio ao Brasil?
- Baba Salau: Na verdade, quem me trouxe ao Brasil foi Adekunle Aderonmu Ogunjimi. Ele é meu filho e veio ao Brasil em 1992 por parte de um intercâmbio cultural. Veio para cá e ficou para estudar Química por que estava interessado em agricultura. Eu vim para cá em 1996 e conheci São Paulo. Na época fiquei hospedado no bairro de Campo Limpo, ali perto do aeroporto.
 Qual foi sua impressão dos brasileiros, das pessoas?
- Baba Salau: As pessoas são simpáticas. Minha impressão é que os brasileiros são pessoas que vivem em harmonia. A cultura é bem parecida com a da Nigéria. Percebi que têm muitos negros como nós aqui. Este é um país que tem a maior população de negros no mundo, só perde para a Nigéria. Eu acho que culturalmente algumas regiões do Brasil são parecidas com a minha terra.
Eu estive na Bahia, muito bonito lá; fui a Belo Horizonte, fui a Uberlândia, visitei várias cidades. Então cada área dessas que eu fui descobri que estamos muito próximos, muito perto, assim como se estivéssemos na África.
 Você se sentiu em casa, ou seja, á vontade?
- Baba Salau: Sim. É como estar em meu país! Me sinto em casa! Não tive problema de preconceito. Fui bem recebido. O povo brasileiro tem uma forma muito boa de receber. As pessoas, principalmente aquelas que frequenta o Ilê Ifá, gostam muito de mim. Talvez por que sou uma pessoa bastante brincalhona e todos gostam de brincar comigo. O Ogunjimi ja é é mais sério. (risos)
 Já existia o Ilê Ifá aqui no Brasil?
- Baba Salau: Não existia Ilê Ifá no Brasil. Foi fundado em 1993, logo em seguida que o Ogunjimi chegou aqui.
- Ogunjimi responde: Vim pra cá em 1992, fazer pós graduação na USP. Estudei bioquímica na Nigéria, então vim fazer pós-graduação em Química. Eu tive um problema na USP e não consegui continuar o curso. Então decidi me dedicar á cultura e a USP é um dos melhores lugares para isso. Havia trabalho lá e eu aproveitei a oportunidade. No que eu podia participar eu participei, mas depois acabou. Não tinha mais trabalho. Então decidi fazer um projeto de nível pessoal. Percebo que a nossa religião precisava ser conhecida aqui e fundei o Ilê Ifá. Em seguida comecei a trazer pessoas da religião: trouxe o Babalaô ( Baba Salau), e outras pessoas da área governamental, políticos. Muita gente veio ao Brasil a meu convite.
 Aqui você conheceu a Umbanda, o Candomblé. O que achou?
- Ogunjimi responde: Sim, conheci a Umbanda, conheci o Candomblé e descobri que boa parte da nossa religião original foi perdida por causa da escravidão. Quando foi trazida para cá, a religião não podia ser cultuada da forma original por causa das punições. Então havia muito medo. Algumas entidades foram sincretizadas, como o caso de Jesus Cristo. Eles viram a imagem de Jesus e o chamaram de Oxalá. Aí comecei o trabalho de passar informação certa, dizendo a eles com calma que Jesus Cristo é do Cristianismo, e o culto aos orixás é uma coisa bem diferente. São muitos anos de informação contra-versa. Temos que respeitar o pensamento do outro que aprendeu assim, e com muita calma apresentar as diferenças. Hoje posso dizer que existem mais de cinco mil brasileiros que gostam da nossa casa Ilê Ifá.

 Na Nigéria todos são adeptos de Ifá ou há divisões ?

Baba Salau: Na verdade, na África, cada família tem seu próprio culto de Ifá. Cada família está ligada a uma determinada casa lá na África onde existem muitos babalaôs também. São uns vinte babalaôs em cada área. Cada área tem sua casa, assim como aqui. No Brasil tem a casa do Cido, a casa do Sérgio, a casa do Mendes; entretanto lá há união, tem uma pessoa que governa todos. 
Por exemplo: tem o Arabá, que é um tipo presidente dos babalaôs, ele mantém todo mundo unido, o que ele fala está falado! Não ah interferência. A casa e o babalaô estão ligados a ele. É o conhecimento do babalaô que faz com que ele um dia se torne um Arabá. Existem babalaôs de doze anos, quatorze anos de culto que não são Arabá. 
Precisa nascer com a cabeça (ori) do segredo (auô), não é uma questão da idade, isso não tem nada a ver! Aqui no Brasil uma pessoa de idade é babalorixá, mas não tem sabedoria. Na verdade, a pessoa já nasce com os poderes necessários para dirigir uma casa. Não precisa ser velho. Pode ser jovem e ser grande.

- Observação de Baba Sérgio de Ogum: Não é o tem que conta. Por exemplo, no Candomblé se exige sete anos para ser pai de santo. La na África é o conhecimento que manda. No Ifá a pessoa passa pelos ritos, pelas obrigações, se ela tiver "conhecimento" então pode ser um babalaô.

 Baba Salau é um Arabá?

- Ogunjimi responde: Ele é um segundo chefe dos babalaôs. O título é praticamente o de um Arabá.

 Explique melhor esse título de Arabá.

-Ogunjimi: Na nossa casa ele é um Arabá, mas existe um outro Arabá, porque são formados grupos completos de Arabás. Cada grupo é uma coisa, mas existe um grupo geral, uma Associação de Babalaôs, que é a Associação dos Arabás.

 E o Baba Salau é um chefe de babalaôs?

-Ogunjimi: Vou explicar melhor. O babalaô é como se fosse um subprefeito, e o Arabá é o prefeito da cidade.

 As associações são sempre religiosas?

- Ogunjimi: Sim, sempre ligadas á religião!

 O governo não interfere?

- Ogunjimi: Não porque existe uma associação própria ligada ao governo.
- Observação do Baba Sérgio se Ogum: O governo determina que cada aldeia tenha o seu Arabá que manda nas aldeias. Têm os babalaôs, as yalorixás, os babalorixás. 
É através dos Arabás que o governo comanda o país.

 Esta havendo boa aceitação do Ifá no Brasil?

- Ogunjimi responde: Claro, hoje o Ilê Ifá é uma das casas mais respeitadas aqui no Brasil. O Ilê Ifá é uma casa que promove cultura, programa palestras, faz congressos, e dá premiação. A casa está ligada ao Consulado e ao próprio Governo do Brasil. O Ilê Ifá é única que está ligada ao governo. Cada vez que trago alguém aqui, faço questão de levar até a Assembléia. A última vez que Baba Salau veio fazer um congresso sobre babalaôs aqui em São Paulo, ele foi recebido na Assembléia Legislativa. Nossa casa é ligada ao Governo. Outras casas também podem estar fazendo a mesma coisa, mais pelo que eu sei, o Ilê Ifá é a mais conhecida. A premiação que eu citei, por exemplo, já foi enviado o projeto ao embaixador do Brasil na Nigéria. O embaixador da Nigéria aqui no Brasil já está sabendo. A maioria de nossos projetos tem a intenção de ligar os dois países.
- Comentário do Baba Sérgio de Ogun: Quando vem alguém da África, o pedido de visto sai daqui do Centro Cultural, que manda a requisição com papel timbrado do Centro Cultural para a África, e libera o visto para o Brasil. O Consulado daqui libera as pessoas para ir e vir é através do Centro Cultural.

 Como o Centro Cultural Africano pretende difundir o Ilê Ifá?

-Ogunjimi: Pretendemos mostrar aos cidadãos brasileiros o outro lado da África que eles ainda não conhecem, por meio de cursos, palestras e pequenas entrevistas em rádio e televisão. A gente usa esses meio de comunicação para passar nossas atividades ao mesmo tempo fazer um trabalho social. A maioria de nossas palestras não é cobrada. A pessoa paga o ingresso com alimento não perecível, assim estará também participando da vida social brasileira.

A estrutura de cursos já está montada? 
- Ogunjimi: Sim. Temos toda estrutura para este ano, inclusive do Curso de Yourubá. A maioria dos eventos já está pronta e pretendemos divulgar nas revistas: Orixás Especial, Afro-magazine, na Afro Card para facilitar a vida de quem quer nos conhecer. Fazemos também excursões para a Nigéria para pessoas que querem conhecer a cultura africana.

 

 O Baba Salau fica um tempo aqui e outro lá?

- Ogunjimi: Ele fica quatro a cinco meses aqui, depois volta para a família na África. Aqui ele dá palestra sobre as várias culturas do Ifá para aprofundar cada vez mais o conhecimento desse culto aos brasileiros.
- Comentário do Baba Sérgio de Ogun: Quando é feita uma iniciação do Ifá, a pessoa tem todo um procedimento de ensinamento do Ifá e o Centro Cultural mantém o apoio.
Digo isso porque existem babalaôs que fazem iniciação do Ifá e depois vão embora para a África e o iniciado fica sem apoio. O Centro Cultural proporciona através do Baba Jimi, do Baba Salau e outros babalaôs esse apoio á pessoa que vem buscar a religião. Isso é importantíssimo, pois já passei por isto. Não é uma questão financeira, é uma questão cultural, uma questão religiosa de verdade. No Centro Cultural encontramos subsídios para estudar Ifá.

 Neste intercâmbio, o que é levado do Brasil para a África?

- Ogunjimi: Na verdade, o Brasil se tornou um país que vem crescendo muito. Na Nigéria não existe comparação em termos de crescimento, de economia, e da própria religiosidade. A gente acha muito bonita a decoração das casas que estão dentro do culto. São coisas assim que nós estamos levando para lá, inclusive a organização!

 Quando o Baba Salau era criança já sabia que teria este trabalho?
- Ogunjimi: O odu dele falou quando ele nasceu que ele ia viajar muito e confirmou que seria um sacerdote de Ifá. Logo na primeira caída o Odu Ogunda Meji já revelou que ele ia viajar e que ia ser um babalaô. A mesma coisa aconteceu comigo quando nasci: foi falado que eu ia ser bem diferente, que ia incomodar muita gente e era para eu me preparar porque ia ter muitos inimigos. (risos).

 O que é Odu?

-Baba Salau: Odu é o destino da própria pessoa. Pode passar positividade ou negatividade. Na concepção do Ifá não existe ser humano que tenha vida só positiva ou só negativa. A vida foi construída para odus com positividade e negatividade. A diferença está com quem vivencia essas energias. Mesmo que a pessoa não vá a igrejas ou a mesquitas ou não cultue Ifá, a positividade/ou negatividade estará junto com ela. Se uma pessoa tem porcentagem maior de positividade, isso não quer dizer que não tenha problemas. A mesma coisa acontece se a negatividade da pessoa for alta tudo na vida dela não dá certo. Ela atrai energia ruim e a vida parece que não vai para frente. Ela quer se livrar dessas energias. Ela luta, luta, luta e não consegue. Mas vamos lembrar que ela também tem um pouco de energia positiva. Aí é que entra o Ifá para analisar a energia que rege a pessoa. Na hora que se joga, pode-se ver a vida da pessoa conforme cai o odu. Dá para ver o quanto de energia boa e quanto de ruim aquela pessoa tem. As coisas boas a não precisa ficar mexendo - time que ta ganhando não se mexe. Nosso princípio é ficar em cima da energia que incomoda a pessoa naquele momento.

 Como se vê isso no jogo?

- Baba Salau: Quando alguém joga para você e cai um odu, isso se chama: iworidi, ireteoyeku e diversas outras configurações que são em um total de 256 odu ou caminhos. São nomes yourubá que usamos. Alguns odus significam vida longa, mas essa informação não garante a vida longa. A pessoa precisa fazer um tipo de ritual para evitar problemas de saúde e ter a vida longa.

 A pessoa deve favorecer a manutenção dessa saúde?

- Baba Salau: O odu diz que pode atrapalhar você. A função do Ifá é ler o jogo e mandar fazer algo para a pessoa prosperar e ficar bem na vida. As coisas vêm com muita luta. Nada vem direto na mão. Para que a prosperidade venha, algumas entidades precisam apoiar. 
Se a pessoa precisa fazer alguma coisa para conseguir melhorar a vida, uma entidade precisa ser usada para apoiar aquela pessoa, elevar e fortalecer o caminho dela. Para isto existe o ebó. É uma energia que vai se inspirar nela para buscar o caminho para ter resposta positiva, porque pode ser que ela tenha uma sociedade. Quero dizer, existe uma sociedade e uma espiritualidade que fica á sua volta chamada (egbé). Na cultura yourubá, quando uma pessoa está para nascer, há uma entidade à volta dela. Quando nasce, a pessoa fica ligada a essa entidade que pode incomodar (no bom sentido). A entidade fica esperando ela voltar a terra para incomodar. Isso se chama egbé. Quando uma pessoa tem egbé, o jogo sempre pede para ela fazer algo que a desligue dessa entidade ou grupo de entidades e assim ela pára de incomodar.

- Comentário de Baba Sérgio de Ogun: é como se fosse uma sociedade espiritual que você pertenceu. Quando encarnou, saiu daquela sociedade, mas eles ficaram lá te aguardando. É uma comunidade sua. São espírito que vivem sempre ligados a sua vida e a morte.

 O que é esse "algo" que se tem que fazer para se desligar?

-Baba Salau: Deve fazer um ebó. A gente prepara um tipo especial de ritual com o nome da pessoa para acalmar estas entidades e fazem com que eles fiquem favoráveis à pessoa encarnada sem atrapalhar sua vida.

 Qual são os projetos do Centro na área da educação?

Ogunjimi: Na área da educação, nosso projeto é fundar uma escola de Ifá. Assim os iniciados no culto obterão ensinamento necessário com o qual poderão dirigir sua vida espiritual com mais facilidade, ou seja: saber o que estão fazendo.

- Comentário do Baba Sérgio de Ogun: É como se fosse uma "faculdade" que ensina, além de outras coisas, o sacerdócio. A ideia é fundar uma aqui. Lá na África existe Universidade de Ifá. A pessoa vai estudar o Ifá e saber como praticar o Ifá. Por exemplo, o Ifá é uma ciência, então podemos estudar o Ifá dessa forma, mas para "praticar" o Ifá tem que ser da forma religiosa. Para ser um manipulador do Ifá tem que ser iniciado religiosamente, mas nada impede o estudo do Ifá.

A pessoa pode só estudar e não praticar?
-Ogunjimi: Sim, se a pessoa quer só estudar o Ifá, porque não? Nada impede de estudar o básico e tudo bem. O Pierre Vergé não foi para a África, mas ele era fatunbi. O Vergê estudou bastante e queria prolongar mais, então falaram que para isso ele teria que ser iniciado. Só assim teria acesso às outras fontes, senão não ia entender.

 O que é fatumbi?
-É um nome, dado a um iniciado em Ifá.

Como chama a universidade de Ifá na Nigéria?
-Baba Salau: Existem várias. Tem a universidade de Lagos, tem a Universidade de Ilê Ifé, tem a de Ibadan, mas a mais ligada em Ifá é a de Lagos.

No ano passado Baba Salau deu palestras aqui?
-Ogunjimi: Fui eu que dei a palestra. No dia marcado ele perdeu o vôo da Nigéria. Quando ele chegou, eu já tinha dado a palestra. Na próxima vez, com certeza o Baba Salau será o palestrante.
-Comentário do Baba Sérgio de Ogun: O importante é o seguinte: alguns nigerianos viram que o trabalho do Jimi está dando certo e resolveram fazer igual. Porém, o Baba Salau vem continuamente ao Brasil há mais de doze anos. Todo ano ele fica quatro a cinco meses. É importante frisar isso. Está cheio de aventureiros por aí. Eles pegam os leigos e contam um monte de história bonitas, mas a verdadeira está aqui no Centro Cultural onde há continuidade. São anos e anos. Ninguém começou ontem. Quem faz iniciação aqui não fica abandonado.

 E quanto ao sacrifício de animais?
-Baba Salau: Quando abrimos um jogo, às vezes aparece que precisa fazer algum sacrifício. Esta questão do sacrifício é polêmica e aproveito para passar uma informação clara sobre isso, porque a maioria das pessoas não entende e pensa que é uma judiação com os animais.
Entretanto, pelo nosso princípio, a coisa não é bem assim. A vida de cada ser humano é muito mais importante do que a vida de um animal. O Deus que nos deu a vida, o alimento e também nos deu o livre-arbítrio para usar a nossa espiritualidade. Portanto, quando Deus criou o ser humano à sua imagem, nos deixou acima de todas as outras criações dele. Quando analisamos um jogo e lá diz que precisa sacrificar um animal para salvar a vida da pessoa, a gente pára para pensar. O problema está mexendo com a cabeça dela devido aos pensamentos errados. Os ajagun (entidades maléficas) mexem muito com as pessoas e elas acabam pensando só coisas negativas; então a cabeça precisa ser aliviada. Para isso deve haver uma troca. Então para a coisa ruim não pegar na cabeça da pessoa (ser humano), é dirigida para a cabeça do bicho. Existe uma cantiga: "Pega a cabeça deste animal, e não cabeça de fulano!" Então a gente acredita que as coisas ruins (pertubações) que estão na cabeça da pessoa vão para a cabeça do bicho e a entidade larga da pessoa. Portanto, a gente não faz judiação com os animais, estamos tentando salvar a vida de um ser humano mais valioso do que um animal que nasceu para isto. Fazemos sacrefício para solucionar este tipo de problema, justamente por isto o uso do animal é importante para nós. Por outro lado, matar um animal sem razão nenhuma, só por maldade, para nós é um ato criminoso. Mas se for para salvar a vida de um ser humano, perturbado por causa de ajagun, se for para libertar a vida do ser humano das mãos dos ajagun, então é válido.

- Comentário do Baba Sergio de Ogun: Sofremos grandes discriminações em virtudes da utilização de animais em nossos rituais, mas os animais ultilizados são do nosso cotidiano como aqueles que são diariamente servidos a nossa mesa tais como ovinos e caprinos, a única diferença e que aproveitamos melhor. Certa vez eu assisti um debate em uma emissora, com uma apresentadora que dizia protetora dos animais, e afirmava que a religião africana pratica crueldade com os animais. Ela ainda fazia referência a um cão que se encontrava no palco. Isso é um equívoco, pois não maltratamos os animais. Em primeiro lugar, aqui no Brasil não usamos cães. Essa cultura não existe. Em segundo lugar, o ritual é rápido e o elo neural é rompido no ato do sacrefício em que o animal não sente dor. Em terceiro lugar, todos nós comemos carne (menos os vegetarianos); a diferença é que na cultura africana nós abatemos e consumimos em nossa comunidade. Respeitamos os ditos protetores, pois existem sempre os mal informados que fazem as coisas do jeito errado e acabam manchando nossa cultura com barbaridades... e nós levamos a culpa. O cachorro é carnívoro por natureza, é um predador. A composição da ração (hoje o segundo maior mercado do mundo) é oitenta por cento de origem animal. Aqueles que se dizem protetores dos animais e nos criticam são os maiores compradores de ração. Cachorro não vive sem comer carne.

 O sacrifício de animais é uma coisa antiga?

-Ogunjimi: Na fuga dos judeus do Egito, Deus manda Moisés sacrificar um carneiro filhote para marcar com o sangue as portas onde a morte não deveria entrar. Todos os primogênitos do Egito morreram inclusive o filho do faraó. Assim ele libertou o povo de Israel. Não estou aqui para defender a matança, mas isso está registrado historicamente. No Ifá usamos muito mais folhas, ervas, plantas do que animais.

 Fala sobre a origem do Ifá e oque significa.

- Baba Salau: Ifá, na verdade é uma adivinhação. A primeira pessoa a fazer isso se chamava Orunmilá. Ifá é um sistema de adivinhação. Por exemplo: se o Baba Jimi está jogando, ele é o Ifá.

 Ele é o condutor, ele é o veículo da informação?

- Baba Salau: Não, o Ifá é o jogo. Quem está lendo chama-se babalaô. A primeira pessoa que leu um jovo de Ifá foi Orunmilá. Todo mundo que vai consultar um jogo ou búzios está fazendo o mesmo que Orunmilá fez tempos atrás.

Então, o babalaô usa o Ifá para se comunicar?

- Baba Salau: Para se comunicar com a energia da pessoa que consulta, para orientar a pessoa segundo o que mostra o odu. Através do odu ele consegue traduzir qual problema que a pessoa tem.

 O babalaô canaliza. Não há incorporação e sim intuição?
-Baba Salau: O babalaô acaba se tornando parte do jogo e o elemento de manipulação e elo entre o mundo espiritual (orum) e o material (aye); então o babalaô é como uma antena para canalizar e interpretar o Ifá.

 Candomblecista e umbandista procuram o Centro?

Ogunjimi: Quem mais procura o Centro para estudar são os babalorixás. Eles querem saber mais. Também vêm os filhos-de-santo libertados de alguma casa que ainda não conhecem e procuram mais informação. Eles fazem o curso e depois usam o aprendizado. Vem gente da Umbanda, da Quimbanda, Candomblé. Outros vêm buscar informação sobre cultura religiosidade africana em geral.

 A informação é aberta para quem não é do santo?

-Ogunjimi: Sim, pode vir fazer o curso sem problemas.

O princípio do Ifá é harmonizar?

- Ogunjimi: No Ifá a harmonia é tudo devemos cumprimentar todos na rua sempre. Nunca querer brigar. Um exemplo disse foi a nossa vizinha. Um dia cismou com a gente e chamou a polícia. Quando os policiais chegaram viraram nossos amigos e disseram: "O que está acontecendo?". A gente explicou. Eles falaram com a vizinha em nome da gente e ficou tudo bem sem brigar.

Isso aconteceu porque seu odu disse que você teria inimigos.

- (Risos) Exatamente, o odu deixou bem claro isso pra mim. Mas depois de tudo, a gente cumprimenta a vizinha. É o sistema de Ifá: harmonia! Ele nos ensina que o inimigo pode virar amigo, nos ensina a usar o amor. O próprio Ifá fala que ele pode cuidar da gente, se fizemos e ensinar coisas boas. Tem gente que não entende e acha que estamos fazendo macumba. Essas pessoas estão julgando sem saber oque realmente é o Ifá.

Baba Salau poderia dar um recado para quem quer conhecer Ilê Ifá?

- Baba Salau: Orunmilá- Ifá é um processo divinatório bem antigo, bem antes de Jesus Cristo, antes de Maomé, antes de Buda. Orunmilá foi um dos primeiro a vir a Terra e deixou algumas atitudes e imprimiu o seu caráter de boa conduta e verdade acima de tudo, divulgando o amor como forma de comunicação. Até hoje o mundo inteiro anda atrás de seu caráter. Orunmilá é aquele tipo de pessoa que tem muita paciência e humildade. Ele reage pela sabedoria, jamais reage pela briga. Ele ouve e executa a sabedoria. Essa sabedoria faz com que o próprio Deus coloque o mundo na mão dele. Por isso se tornou um dos mais conhecidos como profetas. Ele veio para consertar o mundo. A mensagem dele é ajudar! Quando uma pessoa tem problemas, ele ajuda. Descobre qual é o problema e manda um determinado orixá ajudar. Se no jogo sai Ogum, vai lá e faz "oferta" para Ogum. Se sair Oxum, faz para Oxum, se sair Exú, faz alguma coisa para Exu. Só se faz isso quando alguma coisa na vida da pessoa se desequilibra. Orunmilá não é inimigo de ninguém. Ao contrário de outras religiões, um babalaô não pede que um filho seja igual a ele, ele libera.
Jamais exige que um filho seja sacerdote. Então usa sua sabedoria para direcionar o mundo e não decidir alguma coisa que seus filhos não têm. Ele sempre lembra o odu de cada um faz com que cada um siga seu próprio odu e não aquele que a pessoa pensa que é seu destino. Cada um segue o seu. Por isso ele criou o mundo com equilíbrio. O mundo deve ser como Orunmilá, fazer como Orunmilá faz: com sabedoria, sem briga, com humildade e o amor. Isso é o principal. Quem mostrar amor consegue fazer coisas boas. Se o marido mostrar amor à esposa, se torna fiel a ela. Se o filho mostra amor ao pai, ele se torna fiel ao pai. Se o pai mostra amor ao filho, se torna fiel ao filho, e vice versa. Então o amor se tornou a palavra chave para tudo. É justamente isto que Orunmilá mostrou quando veio a Terra. Então, se todo mundo tiver amor para si mesmo, entre si, o mundo será outro. Vamos mostrar amor como Orunmilá mostrou e assim consertar o mundo.

ESSE É UM BELO CONCEITO, MUITO UNIVERSAL

- Baba Salau: Se você ler os Itans (versos) de Orunmilá Ifá, se você ler as traduções, todas falam de apaziguar, falam de coisas boas. Tudo o que fala de Ifá, todas as traduções dos Orikis e Itans, todos os contos falam sobre respeito, sobre ser bom caráter, de não roubar, de não fazer coisas erradas às pessoas. O Ifá só se aproxima das pessoas que são boas. Se o Baba Jimi, eu (Baba Salau) e o Baba Sérgio de Ogun fôssemos pessoas más, o Ifá não se aproximaria de nós, porque ele não aceita mau caráter, a mentira. O Ifá não aceita a mentira de jeito nenhum.

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CENTRO CULTURAL AFRICANO
www.centroculturalafricano.org
Tel: (11) 3392-6123
Baba Sergio Ogunbunmi Fasakin
Instituto Cultural Egbe Ogun
www.egbeogun.org
Tel (11) 5641-4265 ou 9227-5007

Fonte de matéria: Revista dos Orixás